Existe um lugar que você está tentando alcançar há muito tempo. Você não sabe nomear exatamente — mas reconhece a busca. Em cada meta, em cada conquista, em cada vez que você finalmente consegue aquilo que queria e sente, alguns dias depois, que o brilho foi embora.
Não é ingratidão. É que o objeto nunca foi o destino real. Era só o caminho mais próximo para algo que não tem endereço no mundo externo.
"O desejo não quer o objeto. Quer o que o objeto prometeu ser — e essa promessa nenhum objeto real consegue cumprir." Esse lugar que você busca tem origem. É a memória de um estado anterior à castração — anterior à descoberta de que você é faltoso, de que o outro também é faltoso, de que a completude que parecia existir lá atrás era uma ilusão necessária. Quando essa ilusão cai, o que sobra é a falta. E o sujeito passa o resto da vida tentando, de formas cada vez mais sofisticadas, não precisar olhar para ela.
Na leitura psicanalítica, um sintoma pode também cumprir uma função na maneira como a pessoa enfrenta seus conflitos. Compreender essa função é diferente de supor que ela escolhe sofrer ou que o conhecido é sempre recompensador.
"O sintoma não persiste apesar do sofrimento que causa. Persiste por causa do gozo que entrega — e o gozo do reconhecido sempre supera o prazer do novo." E a autopunição — aquela voz que diz que você deveria ter feito mais, sido mais, chegado mais longe — não é crueldade gratuita. É o superego respondendo à impossibilidade de ser completo. Como a lei interna exige o que é inalcançável, a culpa é permanente. Sempre haverá uma versão de você que faltou ser.
Paradoxalmente, essa culpa também conforta. Ela prova que você se importa. Que ainda está tentando. Que o lugar da completude ainda existe — só está um passo à frente.
É aí que o ciclo se fecha e se perpetua.
Você não precisa resolver a falta. Precisa parar de tratá-la como um problema a ser resolvido.
A completude que você busca nunca existiu no mundo externo. E reconhecer isso — de verdade — é o único movimento que muda alguma coisa.
