A relação estava indo bem. Melhor do que qualquer outra antes. E então — sem que você entenda exatamente como — você disse algo que não precisava dizer. Ou se afastou sem motivo. Ou criou um problema onde não havia nenhum.
O emprego novo estava funcionando. Você estava se sentindo capaz, reconhecido, no lugar certo. E então veio o atraso, a entrega incompleta, a ausência que não tinha justificativa real.
Você conseguiu o que queria. E algo em você não aguentou ficar lá.
"Não é que você não merece o que conquistou. É que uma parte de você ainda não aprendeu que pode ficar com ele."
A sabotagem da felicidade tem uma lógica que a sabotagem do fracasso não tem — e é por isso que desconcerta mais. Quando você sabota antes de chegar, existe ao menos a narrativa do medo de tentar. Mas quando você sabota depois de chegar — quando a coisa boa já está na mão e você a deixa cair — a narrativa não fecha. Não tem explicação racional. E a culpa que vem depois é proporcional à falta de explicação.
O que está operando ali não é irracionalidade. É uma crença tão antiga que passou a parecer verdade sobre o mundo: que o prazer não dura, que coisas boas têm prazo de validade, que esperar o fim é mais seguro do que ser surpreendido por ele. E então, inconscientemente, você antecipa. Você produz o fim antes que ele chegue — porque ao menos assim você tem algum controle sobre quando e como.
"Sabotar o que é bom não é autopunição. É uma estratégia de sobrevivência de quem aprendeu cedo demais que coisas boas vão embora — e que doem mais quando você não estava esperando."
Lacan nomeou algo que ajuda a entender isso: o sujeito não busca apenas prazer. Busca gozo — e gozo inclui o que é familiar, o que é conhecido, o que organiza o desejo de uma forma reconhecível. Para quem cresceu num ambiente onde a estabilidade era rara, onde o afeto era inconsistente, onde as coisas boas sempre tinham um custo — o estado de bem-estar prolongado pode ser genuinamente desconfortável. Não porque você não queira. Mas porque permanecer em uma experiência boa pode despertar estranhamento e medo de perdê-la.
E então ele faz o que sempre faz diante do desconhecido: procura a saída.
Tem ainda outro mecanismo. Quando a felicidade chega — quando a relação está bem, quando o trabalho está indo, quando a vida está organizada — surge às vezes uma angústia silenciosa que não tem nome claro. Uma espécie de isso não pode durar, de o que vai dar errado, de não mereço isso. E em vez de sustentar essa angústia, o sujeito a resolve da forma mais rápida disponível: cria o problema que estava esperando. Confirma a crença. Encerra a incerteza.
"É mais fácil perder o que você mesmo destruiu do que perder o que você amava — porque ao menos no primeiro caso, você tinha algum controle."
A saída não é simplesmente decidir parar de sabotar. Decisão não chega onde o problema está. O que muda é quando o sujeito consegue reconhecer o padrão enquanto está acontecendo — notar a angústia antes de agir a partir dela, perceber o impulso de estragar antes de executá-lo, e fazer algo diferente nesse espaço.
Não porque a felicidade seja garantida. Mas porque você finalmente decidiu que merece tentar ficar com ela — mesmo sem saber quanto tempo vai durar.
Você não sabota porque é autodestrutivo. Sabota porque aprendeu que coisas boas têm prazo — e que é menos doloroso acabar com elas do que ser surpreendido pelo fim.
Mas existe uma diferença entre proteger-se da dor e nunca permitir que o bem dure o suficiente para ser real.
